Bravura Indômita é um faroeste comum, banal, com cenas clichês no gênero (emboscada, duelo, fala esperta), um enredo padrão (vingança) e heróis caricatos.
Só que foi feito pelos tais irmãos Coen e tem o Jeff Bridges como principal coadjuvante e a sensacional Hailee Steinfeld como protagonista, na pele de uma determinada garota de 14 anos iniciada pelo pai na arte da negociação e nas formalidades da vida adulta, que busca vingança por sua morte e contrata um oficial para caçar o malfeitor.
Bravura Indômita é de fato isto: um velho e bom faroeste. Só que muito bem feito, muito belo em paisagens e em narrativa, e, como é característico dos Coen, muito fortemente centrado em personagens.
Os Coen são conhecidos por filmes simples mas técnica e artisticamente surpreendentes. No oscarizado Onde Os Fracos Não Têm Vez, por exemplo, tornam Javier Barden um personagem monstruoso e assustador de maneira sutil. O próprio filme se diferencia por simplesmente não ter trilha sonora.
Bravura Indômita é o contrário. Não só possui música e música-tema (à la comercial da Marlboro) como também tem tiradas de humor, violência, drama e cenas de simples e pura beleza, mesmo contrastando com ocasiões em que se mostra um tempo onde as coisas eram mais difíceis. Aliás, bela fotografia. E que bela cena inicial!
E o título? Bem, dá pra perceber bem rápido a que ele se refere. Mas se não entendeu, lembre-se da cena onde o cavalo atravessa o rio a nado e de quem o montava. Sim, a nado. Uau.
Nota: 5/5
Parece com: as manhãs de sábado do seu pai cinqüentão.
Como ver: procure beleza na simplicidade.
Nunca, jamais, eu esperaria que um filme cujo tema é balé e a protagonista é uma mulher frágil, infantil e feminina, pudesse ser tão violento, brutal e assustador.
Eis CISNE NEGRO.
Em Cisne Negro, Natalie Portman interpreta Nina, uma excelente bailarina obcecada pela perfeição. Infantilizada e sufocada pela mãe, uma bailarina aposentada que nunca teve uma carreira expressiva, Nina é meiga, doce, boazinha, recatada, medrosa e covarde. De repente ela vira o centro das atenções quando é escolhida por Thomas, diretor da companhia, não só para substituir uma estrela veterana como também pra ser o cisne branco E o cisne negro do Lago dos Cisnes.
Só que como se não bastasse toda a pressão — da mãe frustrada, do chefe exigente e abusado, das amigas invejosas — Nina é muito meiga e boazinha demais pra interpretar o malvado cisne negro. É a história de como Nina vai ser subjugada por esta pressão e por suas obsessões o grande espetáculo desta obra.
Não sei se já vi todos os filmes com a Natalie Portman, mas eu poderia apostar cegamente que Cisne Negro é seu melhor papel. Natalie transparece a personalidade frágil e insegura de Nina com tanta naturalidade e sutileza que ajuda a tornar o enredo ainda mais assustador e muito mais real. Sim, assustador. Cisne Negro dá medo, transmite insegurança e ansiedade, faz duvidar do que é real ou imaginação. Praticamente um terror, e nem tem sustos nem fantasmas (embora o filme tome algumas liberdades artísticas que, apesar de terem contexto, podem não agradar a todos).
Com mensagens subliminares desde o primeiro quadro (espelhos, luzes, closes nos rostos, e… sinais; preste atenção), um roteiro absurdamente inspirado e uma Natalie Portman perfeita, Cisne Negro é um dos melhores filmes que estes olhos já viram.
Mas esteja avisado: não é cinema-pipoca. Se ao menos o cara que saiu atrás de mim dizendo que “esse filme é uma merrrrrda, vou contar pra todo mundo!” tivesse lido esta resenha no Hoje Eu Vi, poderia ter ido assistir um filme melhor, tipo Jogos Mortais.
Nota: 5/5
Parece com: nada que você já tenha visto antes.
Como assistir: siga o conselho de Thomas para Nina e deixe-se levar.
Senhoras e senhores, por gentileza repitam comigo: Clint Eastwood é deus. Tive essa epifania ao ver o sensacional GRAN TORINO (que não é o melhor dele, dizem) e ALÉM DA VIDA é mais uma prova.
Não vou contar a história, mas posso adiantar que é bonita e comovente. Clint sabe muito bem construir seus personagens (basta lembrar de MENINA DE OURO) e usar isso como background E fio condutor de uma história. Num filme que conta com TRÊS personagens principais, é uma proeza fazer com que nenhum seja acessório; até os escadas parecem gente de verdade. E olha que estamos falando de um tema que pra todos os efeitos é fantástico: vida após a morte.
Pois Clint Eastwood consegue transformar o fantástico em verossímil fácil. Os personagens são tão verdadeiros e te trazem tão pra perto da trama que arrisco dizer que ALÉM DA VIDA é muito mais convincente no sentido de te fazer crer na vida após a morte do que as baboseiras doutrinárias e bajuladoras brasileiras (Chico Xavier e Nosso Lar, tô falando com vocês), ou mesmo dos irmãos de tema americanos como Amor Além Da Vida e Um Olhar do Paraíso (efeitos DEZ, história ZERO) ou Ghost (que é um romance bregaço). E o melhor: em momento nenhum se trata de um filme espírita ou espiritualista.
Contado como um bom conto, ALÉM DA VIDA não é brilhante como os últimos trabalhos do deus Eastwood, mas ainda assim é sensacional. Destaque pra trágica abertura do filme. Confira no trailer.
Nota: 4/5
Parece com: nenhum outro filme sobre vida além da morte já feito.
Como assistir: ALÉM DA VIDA é essencialmente um drama centrado nos personagens. Então esqueça viagens psicodélicas e vislumbres do Nosso Lar. Este filme é um drama, DRA-MA!
O que eles disseram:
“A diferença é que através do olhar experimentado de um mestre, mesmo o roteiro mais clichê ganha valor - e extrai-se do filme outras qualidades e momentos, como a assombrosa sequência inicial, a primeira grande experiência de Eastwood com grandes efeitos especiais.” (Érico Borgo, Omelete).
É simplesmente um crime eu ter visto este filme há meses atrás e ainda não ter resenhado. Deixem-me corrigir esta falha.
O LUTADOR é a história do dia depois de uma carreira de sucesso do protagonista, um lutador de wrestling americano. Wrestling, se você nunca jogou videogame, é a luta-livre coreografada tipo Telecatch da extinta TV Manchete. Lembrou? Não? O Google sabe, pergunta pra ele.
O LUTADOR mostra o dia-a-dia de um atleta semi-aposentado, lutando pra extrair dos velhos dias de glória um pouco de dinheiro e tranquilidade. Aí vem o dilema: só o que ele sabe fazer é lutar, mas seu corpo não lhe permite mais lutar. Junto com a saúde também vêm abaixo sua auto-estima e a força do seu caráter.
Oscilando entre o bruto e o amável, o irresponsável e o pai-de-família arrependido, o lutador interpretado fodasticamente por Mickey Rourke tenta alcançar a paz consigo mesmo. E eis o motor do filme: a busca por uma identidade perdida há muito tempo e contra o inevitável envelhecimento do corpo. Espere ver arrependimentos, recaídas, conquistas, raiva e sonhos.
O LUTADOR é um filme de uma beleza triste que é melancólico sem ser piegas ou depressivo. Uma bela reflexão.
Nota: 5/5
Parece com: Coração Louco
O que eles disseram:
Infelizmente, porém, Randy não pode fugir de seu maior problema: sua personalidade autodestrutiva. Mesmo reconhecendo ter se transformado num solitário “pedaço de carne velha e estragada”, o sujeito não consegue deixar de cometer os mesmos erros de sempre (“Não sei por que faço isso!”, ele desabafa baixinho, para si mesmo) - e é esta característica que transforma o personagem em uma figura trágica e inesquecível. (Pablo Villaça, Cinema em Cena)
ENTRANDO NUMA FRIA MAIOR AINDA COM A FAMÍLIA é mais uma comédia do Ben Stiller. E é só isso o que eu tenho a dizer sobre esse filme. Na verdade isso já diz tudo.
Nota: 3/5
Parece com: qualquer outro filme do Ben Stiller.
Como assistir: como você assistiria qualquer outro filme com o Ben Stiller (ou com o Adam Sandler), especialmente os outros dois anteriores da série “Entrando numa fria”.
P.S: Robert De Niro, Barbara Streisend, Dustin Hoffman e Jessica Alba no elenco, juntos, não têm força pra transformar este filme em algo além de mais um filme do Ben Stiller.
P.S.2: esta resenha está até grande.
P.S.3: é um bom videogame.
P.S.4: o cara que bolou o título da versão brasileira só pode estar de sacanagem.
ENTERRADO VIVO é o típico filme ame-ou-odeie e se você é cheio de frescuras com filmes diferentes então é melhor esquecer porque você vai sair do cinema no meio do filme.
Alguém aí, ainda? Bom.
ENTERRADO VIVO é um filme que como poucos faz jus ao título: se passa dentro de uma caixão onde um cara foi… preciso repetir o título? Com ele apenas um isqueiro, um celular, uma garrafinha de birita e outros objetos simples. É isso, sai daí agora.
É um filme de baixo orçamento sem a conotação negativa do termo — não tem produção ruim, atores desconhecidos e pouco talentosos ou fãs pseudointelectuais — muito pelo contrário, já que Ryan Reinolds faz blockbusters (o próximo é Lanterna Verde). Também não há que se preocupar com vícios de filmes independentes como efeitos bizarros e devaneios artísticos. Enterrado Vivo é o que é: honesto sem ser vagabundo, simples sem ser pobre.
Feitas as ressalvas só posso dizer que Enterrado Vivo é um filme bastante tenso e que toma muito a atenção do público, o que é uma proeza já que ele se passa dentro de um caixão de madeira. A luta do protagonista pra escapar acontece muito mais no plano psicológico e ter de lidar com teleatendimento (lembre-se que ele tem um celular) já é ruim o bastante ao ar livre.
Mas o filme não se limita a isso. É interessante torcer, tentar pinçar informações sobre a vida do pobre enterrado e traçar o perfil das pessoas que lhe ajudam ou lhe atrapalham na tentativa de se livrar dessa situação surreal. A sensação de “e agora?!” tá o tempo todo presente e te prende à tela.
ENTERRADO VIVO, só por curiosidade, é um filme espanhol com elenco predominantemente americano. Se você viu filmes como REC sabe que essa safra recente sabe criar tensão como ninguém, e ENTERRADO VIVO prova que eles não precisam nem de zumbis.
Só daria um pitaco: se durasse uns 30 minutos a menos teria sido mais intenso.
Nota: 4/5Parece com: Por um FioComo assistir: torcendo e sem claustrofobia.
DE PERNAS PRO AR conta a história de uma workaholic interpretada pela Ingrid Guimarães que fica com o casamento por um fio de tanto trabalhar. Por causa de um mal entendido bizarro, acaba demitida e faz amizade com uma vizinha dona de um sex shop, o que conduz a uma série de situações saias-justas.
É a típica comédia romântica brasileira: sem graça, sem sal, previsível, aguada (sim, ainda mais que as americanas), com o agravante de ser mal feita (e tome baixo orçamento), ter cenas copiadas (a da calcinha vibratória, por exemplo, veio daqui) e todos os clichês do gênero MAIS os clichês nacionais: patrocínio descarado, participações especiais mal disfarçadas, ângulos de novela, texto boboca.
Ruim? Não é, não. Absolutamente. Eu diria até que tem que ser muito chato pra não rir e tiro o chapéu pra talentosa Ingrid Guimarães, que leva o filme nas costas. DE PERNAS PRO AR tem ótimos momentos e tem qualidade sim pra fazer rir. Mas pra chegar no nível de produção e graça das americanas — a evidente inspiração — ainda teremos de comer muito feijão (ou hambúrguer).
Mesmo assim tive a impressão que “De pernas…” é um pouco menos idiota que, sei lá, “Se eu fosse você”, mas ainda pende praquelas esquetes novelescas e piadinhas que só sua vó acha engraçado; por outro lado, tem meu relativo respeito por ser mais aguado que babaca.
Nota: 3/5
Parece com: Muita calma nessa hora, Sexo, Amor e Traição, e… bem, todas as comedias românticas brasileiras são meio iguais né?
Como assistir: deitado na cama depois da novela junto com a patroa.
ÚLTIMA PARADA 174 será o primeiro Ontem Eu Vi da história, já que passou na Globo na véspera. Portanto esta resenha servirá para aqueles que entre nossos fiéis 30 seguidores não puderam ver.
O cinema brasileiro da “retomada” tem dois filmes-padrão, a comediazinha classe média babaca e o drama violento boca-suja com bandidos. “Última Parada 174” é o segundo, claro, e infelizmente não é mais que um enorme clichê.
A imagem do copo quebrado reunindo os momentos da vida do protagonista é previsível demais; a coincidência sugerida no início e concretizada lá na frente é forçada (ignoro se é real); o personagem principal não tem a mínima densidade, é só um boneco; aliás as atuações como um todo são fracas. Não bastasse esse saco de ideias batidas, no resto o filme é o mesmo enredo repetido de todos os filmes vid4lok4 brasileiros (por isso Cidade de Deus se sobressai, é original), apesar de uma boa direção de arte: tudo parece servir só pra mostrar a vida de cão do bandido e pra tentar humanizá-lo.
Dito isto — e apesar dos bocejos eventuais — não é ruim, e tem o mérito de não glorificar (muito) o bandido, como… todos os outros brasileiros exceto os classes-médias babacas e Tropa de Elite. Coloco um pouco abaixo de Carandiru (outro clichê gigante, mas mais interessante) e no mesmo nível de Era Uma Vez…, aquele romancezinho fraco do menino da favela com a menina do Leblon.
Pra reforçar, o roteiro é de Bráulio Mantovani (Tropa de Elite). O cara sabe criar histórias lineares, focadas, centradas, em oposição ao estilo meio novela (com vários personagens secundários desimportantes) predominante no cinema brasileiro. Então dá pra dizer que é uma boa história sobre como as coisas podem dar errado e isso é interessante.
Nota: 3/4
Parece com: Pixote, versão reloaded, sem crianças peladas.
Como assistir: espere passar de novo na Globo.
CONTATOS DE 4º GRAU
A ideia do Hoje eu Vi é ser curto e grosso sem perder tempo com chatice e intelectualismo de crítico chato, então vou logo direto ao ponto: esse é um filme ame-ou-odeie. Se você não gosta de se arriscar com essa categoria de cinema, passe longe.
Eu gostei. CONTATOS é a história de uma psicóloga que se muda para o Alasca tentando continuar o trabalho do seu marido que morreu em circunstâncias estranhas. Todos os pacientes da cidade têm sonhos recorrentes que logo se descobre ser, literalmente, coisa do outro mundo.
O legal de CONTATOS é que ele se esforça pra te fazer acreditar que é verdadeiro. Milla Jojovich desde o começo diz que o filme é na verdade uma reconstituição e o tempo todo são intercaladas filmagens de cinema e tomadas supostamente reais (SPOILER — não são). Isso ajuda a aumentar a tensão do filme, especialmente quando as coisas começam a dar MUITO errado.
Como o título entrega, esse aqui é um filme sobre alienígenas e abdução. Pelo que eu já falei até agora já deu pra sacar: não espere efeitos especiais, ETs em detalhes, naves espaciais enormes e Milla Jojovich segurando canos fumegantes (isso é Resident Evil, basta adicionar zumbis). O legal aqui é o terror psicológico e o realismo do tipo menos-é-mais ajuda bastante.
Fica o alerta do começo do texto pra que ninguém fique com raiva de eu ter recomendado um filme ruim, afinal nenhum filme é ruim só porque você não gosta dele. Exceto Dogville, claro.
Nota: 4/5
Parece com: Atividade Paranormal, mas o câmera não tem Mal de Parkinson.
Como assistir: deixe a Milla te levar (Milla leva eu!).
72 Horas é um filme Supercine. Vou explicar.
Tem uma hora que os filmes começam a se parecer tanto uns com os outros que dá pra classificá-los conforme o clichê. Um método que eu gosto muito é ordená-los conforme a sessão de filmes da Globo em que ele provavelmente será exibido. Comédias românticas vão para a Sessão de Sábado. Filmes de ação e policiais pesados vão para o Domingo Espetacular (olá, Charles Bronson). Infantis e qualquer filme com animais falantes hoje em dia é Sessão da Tarde (bons tempos de pagação de peitinho no Porky’s pós-almoço da década de 80). Filmes bons… bem, esses dificilmente ainda passam com frequência na Globo.
O Supercine, sessão de sábado à noite, é dedicado a todos os filmes com fundo policial. Pode ser um drama, um romance, um suspense, um filme de ação: se tiver polícia, pode ter certeza de que vai passar no Supercine. Denzel Washington aqui é rei.
72 HORAS — outra vez — é um filme Supercine. Trata-se de um drama em que o protagonista tenta provar que sua esposa, presa por homicídio, é inocente. Quando nada mais dá certo ele “atravessa a linha” (oi de novo, Charles Bronson). Realmente nada de novo, fora o fato de ver Russel Crowe bater em alguém apenas depois de 1h30 de filme. Destaque pra cena espetacular de tentativa de suicídio em que a cidadã se joga pra fora do carro sem tirar o cinto de segurança, que além de tudo parece ter sido toda feita no XBox 360.
Apesar de tudo 72 Horas é bem legal. Interessante ver em detalhes como o protagonista planeja livrar sua esposa da cadeia e o medo que enfrenta a cada vez que comete algo ilegal. O quarto final do filme, com uma longa sequência de eventos em que nada parece que dará certo, é — sem sarcasmo dessa vez — muito boa.
72 Horas só não merece uma nota maior por ser tão, tão, tão Supercine. Mas não é desperdício do seu dinheiro.
Nota: 3/5
Tradução: clichê que dói, mas minimamente inteligente e interessante.
Parece com: todos os filmes que já passaram no Supercine ou com a maioria dos filmes do Denzel Washington.